Depois da segunda taça de Moet&Chandon, o preferido de Lidia, eu fiz o pedido. Estávamos juntos há cinco anos, nos conhecíamos tão bem. Por que não? Gostava da companhia dela e o meu apartamento era bastante confortável para nós dois. Poderíamos construir uma vida juntos.
Ela disse que queria conversar comigo já fazia algum tempo e não sabia bem por onde começar. Mas com o pedido de casamento despejou tudo: “Me sinto vazia, num deserto sem estrelas e sem brilho, não sei mais se é dia ou noite, não me importo, preciso saber quem sou, me descobrir, só existir não basta, quero mais vida, quero voar”. Acho que foi isso. E antes de se levantar passou a mão pelo meu rosto com carinho e disse: “Mas se do nada, da vastidão, da não-existência, um dia fez-se luz, céu e mar, quem sabe começaria a escutar uma outra música e a dançar num passo só seu.” Eu não disse nada. Não me levantei da mesa. Não me despedi. Fiquei observando Lidia se afastar e deixar o restaurante. Sabia que nunca mais a veria.
Estava há horas olhando para as duas alianças rodopiando em meu dedo indicador. Meu olhar vagava pela sala de estar contemplando o nada. Meus pensamentos palpitavam acompanhados por uma canção antiga que diz assim: “os mais belos hinos e poesias foram escritos em tribulação, e do céu as lindas melodias foram ouvidas na escuridão…”
Quando eu tinha sete anos de idade me apaixonei loucamente por uma vizinha dois anos mais velha. Mas ela dizia que eu não sabia dançar. Nunca consegui dançar. Não mexo os braços, não acompanho a música, me sinto esquisito. E agora vinha Lidia me dizer que queria uma dança só sua. Acho que esses passos não sei dar. Guardei as alianças numa caixinha de madeira no fundo da gaveta de meias. Tirei os sapatos e fui dormir convencido a deixar toda essa história para trás – talvez no fundo de uma outra gaveta – e fazer uma viagem. Minha mãe costumava dizer que a vida é um sopro. Então, sem muito planejar, como um balão solto, resolvi me deixar levar pelo vento da vida, que sopra onde quer.