um tapete se estende enquanto caminho

tecido de asfalto quente vermelho-flamejante

o flamboyant floresce em meio ao cimento

ergue os braços agradecendo aos céus

a infinitude que os meus olhos não alcançam

o pardal sai do ninho em busca de alimento

o voo é perfeito

as asas se abrem em equilíbrio

que já não sei.

O solavanco do metrô foi tão forte que agarrei o primeiro braço que alcancei pra não cair de cara no chão. O dono do braço, concentrado que estava em sua leitura, levou um susto. Foi quase engraçado.  Eu fingi que fiquei sem graça pra não parecer maluca. Pedi desculpas pelo mal jeito, ele deu um meio-sorriso tímido.  Magro, alto, cabelo vermelho-acobreado, sardas no rosto. Estava lendo Paul Auster antes do nosso pequeno incidente.

Eu gosto de pessoas tímidas. Elas sempre me surpreendem porque vão se mostrando aos poucos,  em conta-gotas. Nada de enxurradas verborrágicas. Gosto do silêncio intencional.

A moça do metrô anunciou a próxima estação: Cinelândia.

Sabe o que decidi? Essa é a última vez que te digo adeus. Eu sei, você pensa que estou blefando. Que voltarei como das outras vezes. E sim, já disse isso antes. Mas ontem cheguei em casa com a maquiagem borrada de tanto chorar. Meus olhos eram uma grande mancha de rímel e lápis preto. Se eu usasse drogas faria o estilo heroin chic. Mas não quero ser heroína. Só quero me lembrar de quem eu era antes de te conhecer. Não quero ouvir as suas desculpas travestidas de poesia e fingir que acredito. Não quero mais dormir sozinha porque você se atrasou de novo. E comer a comida gelada. E beber o vinho pálido. Meu amor por você puiu, como um tecido esticado até não poder mais.

E quer saber? Usar salto alto por tanto tempo, cansa.

O que você pensa de mim não é o que me define. Sou mais do que você pode ver. Muitas vezes me rebaixei às suas palavras. Errei comigo mesma, sofri desnecessariamente, acreditei, amei,

É engraçado como tantas vezes olhamos para trás e nos perguntamos: como pude gostar tanto de alguém que não tem nada a ver comigo? Onde eu estava com o coração? Mas isso passa. A perspectiva muda com o tempo e nos ajuda a enxergar melhor. Não que não tenha sido verdadeiro tudo o que vivemos, as dores, os rasgos, os sonhos. Foi verdade sim. Mas as “verdades” do nosso coração, às vezes, são um engano.

Olhar para o passado, com tudo o que ele representa, nos ajuda a ser quem somos hoje. Isso é bom!

Depois da segunda taça de Moet&Chandon, o preferido de Lidia, eu fiz o pedido.  Estávamos juntos há cinco anos, nos conhecíamos tão bem.  Por que não?  Gostava da companhia dela e o meu apartamento era bastante confortável para nós dois.  Poderíamos construir uma vida juntos.

Ela disse que queria conversar comigo já fazia algum tempo e não sabia bem por onde começar.  Mas com o pedido de casamento despejou tudo: “Me sinto vazia, num deserto sem estrelas e sem brilho, não sei mais se é dia ou noite, não me importo, preciso saber quem sou, me descobrir, só existir não basta, quero mais vida, quero voar”. Acho que foi isso.  E antes de se levantar passou a mão pelo meu rosto com carinho e disse: “Mas se do nada, da vastidão, da não-existência, um dia fez-se luz, céu e mar, quem sabe começaria a escutar uma outra música e a dançar num passo só seu.” Eu não disse nada.  Não me levantei da mesa.  Não me despedi.  Fiquei observando Lidia se afastar e deixar o restaurante.  Sabia que nunca mais a veria.

Estava há horas olhando para as duas alianças rodopiando em meu dedo indicador.  Meu olhar vagava pela sala de estar contemplando o nada. Meus pensamentos palpitavam acompanhados por uma canção antiga que diz assim: “os mais belos hinos e poesias foram escritos em tribulação, e do céu as lindas melodias foram ouvidas na escuridão…”

Quando eu tinha sete anos de idade me apaixonei loucamente por uma vizinha dois anos mais velha.  Mas ela dizia que eu não sabia dançar. Nunca consegui dançar.  Não mexo os braços, não acompanho a música, me sinto esquisito.  E agora vinha Lidia me dizer que queria uma dança só sua.  Acho que esses passos não sei dar.  Guardei as alianças numa caixinha de madeira no fundo da gaveta de meias.  Tirei os sapatos e fui dormir convencido a deixar toda essa história para trás – talvez no fundo de uma outra gaveta – e fazer uma viagem. Minha mãe costumava dizer que a vida é um sopro.  Então, sem muito planejar, como um balão solto, resolvi me deixar levar pelo vento da vida, que sopra onde quer.